Hoje, dia 11 de outubro, é um dia especial para a música popular brasileira: são quatro grandes artistas da nossa MPB que nasceram na data de hoje – Cartola (em 1908), João do Vale (em 1934), Tom Zé (em 1936) e Jorge Vercillo (1968).
Cada um em uma década diferente, com um estilo diferente, em uma cidade diferente. Mas todos com o dia 11 de outubro em comum. A outra coisa que todos esses artistas têm em comum é – cada um deles à sua maneira – ter composto uma música em especial em que refletem com profundidade sobre a vida.
Nesta data especial, nós trouxemos cada uma dessas quatro músicas para você conhecer e refletir também. Aproveite!
1 – O Mundo é um Moinho – Cartola
Um dos maiores sambistas da história da nossa música, o carioca Angenor de Oliveira, o Cartola, compôs uma das mais belas músicas do cancioneiro popular brasileira: “O Mundo é um Moinho”.
Lançada pelo próprio sambista em seu segundo disco – “Cartola II”, de 1976 – a canção foi composta em 1943, para a filha adotiva de Cartola, Creusa, que era afilhada de sua primeira esposa, Deolinda, e que foi morar com o casal aos cinco anos, depois da morte dos pais.
“O Mundo é um Moinho” é um verdadeiro e profundo ensinamento sobre as durezas da vida e o cuidado que é preciso ter sobre decisões a tomar quando se torna adulto.
“Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar”
Saiba tudo sobre a vida e a obra de Cartola, no Arquivo Novabrasil especial sobre o artista.
2 – Carcará – João do Vale
Carcará é uma ave de rapina que sobrevive às mais duras condições, conseguindo se alimentar até mesmo em regiões de seca e aridez:
“Carcará quando vê roça queimada
Sai voando, cantando, carcará
Vai fazer sua caçada (carcará)
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada”
A canção do cantor e compositor maranhense João do Vale em parceria com José Cândido – e apresentada no espetáculo de protesto “Opinião”, em 1965, no auge da ditadura militar no Brasil – denunciava toda a desigualdade e todo o desprezo e descaso sofrido pelos nordestinos, que morriam ou eram expulsos de suas terras por conta da seca, castigados pela fome. A canção repudia a opressão de um regime perante as dificuldades de seu povo.
No meio da letra – brilhantemente interpretada por Maria Bethânia, que, com sua visceralidade, ganhou neste momento (aos 18 anos!) a alcunha de cantora de protesto – inclui a recitação de um texto retirado de um relatório da Sudene – Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste:
“Em 1950, mais de 2 milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados natais. 10% da população do Ceará emigrou. 13% do Piauí. 15% da Bahia. 17% de Alagoas.”.
O trecho é seguido pelo fim da letra escrita por João do Vale:
“(Carcará) pega, mata e come
Carcará num vai morrer de fome
Carcará, mais coragem do que homem
Carcará pega, mata e come!”
Na versão da canção interpretada mais tarde, em 1982, por João do Vale e Chico Buarque, o protesto fica mais claro. Eles incluem a frase: “Enquanto isso, um colar com com 40 pérolas de águas marinhas brasileiras era dado à Rainha Elizabeth”.
Saiba tudo sobre a vida e a obra de João do Vale, nesta matéria especial.
3 – Tô – Tom Zé
Trazendo toda complexidade e inventividade de um dos artistas mais geniais que o Brasil já conheceu, com essa letra cheia de contradições e paradoxos (uma parceria com Élton Medeiros), Tom Zé – mais uma vez – desafia a lógica convencional.
Na música “Tô”, o baiano explora a ideia de que os opostos se complementam e de que a vida é repleta de dualidades. De que é necessário experimentar um extremo para compreender ou experienciar o outro.
Essas antíteses, na verdade, revelam uma busca por equilíbrio e por uma compreensão mais profunda da existência humana, que é complexa por si só.
Tom Zé nos mostra em “Tô”, que muitas vezes, é preciso se perder pra se encontrar. Ou de que pode ser desordem que as coisas se ajeitem.
O compositor é genial ao brincar com as palavras, fazendo com que a linguagem e os conceitos nos desafiem a pensar fora da caixa. Esse é Tom Zé!
Acontece que não são só as oposições presentes na letra da canção que trazem a contradição para a música “Tô”.
Há presente na nossa história também uma grande contradição com relação a essa música.
Por conta da inventividade e originalidade presentes na obra de Tom Zé, o artista foi muito injustiçado e excluído pela indústria musical, que dizia não saber onde encaixar ou rotular sua música.
Ele mesmo não queria rótulos: com sua ruptura de padrões – que juntava o folclore riquíssimo do sertão baiano, um certo primitivismo atemporal e uma elaboração extremamente avançada, à frente de seu tempo – dizia: “Procuro fazer a antimúsica, porque se é pra fazer o que já está feito…”.
Por muitos anos, Tom Zé não era sequer escutado pelo público o brasileiro, ficando totalmente esquecido.
Mas, ao mesmo tempo, Chacrinha – apresentador mais popular do país e conhecido por levar ao seu programa grandes nomes da música brasileira – usava uma frase justamente da música “Tô”, lançada no álbum “Estudando o Samba”, de 1976, época em que vivia esse desprezo por parte da mídia e do público brasileiro.
Chacrinha sempre dizia em seu programa: “Eu não vim pra explicar, eu vim pra confundir!”.
Quer contradição maior do que essa? O comunicador musical mais popular do país, fazendo referência à uma música de um artista que era totalmente desprezado pelo grande público?
Saiba tudo sobre a vida e a obra de Tom Zé, nesta matéria especial.
4 – Eu e a Vida – Jorge Vercillo
A música “Eu e a Vida”, lançada pelo cantor e compositor carioca Jorge Vercillo em 2006, aborda como momentos de privação, decepção e superação são, na verdade, convites da vida para o crescimento pessoal.
Na canção, Vercillo mostra que o verdadeiro desenvolvimento acontece quando somos desafiados a ultrapassar os limites que achávamos que nos eram impostos, reforçando que o aprendizado é constante e, muitas vezes, nasce das dificuldades. O cantor fala sobre a importância de sonhar e de estarmos vivos.
A canção inspirou a escritora brasiliense Keilla Barreto no processo criativo do romance “Entre Decadência e Elegância”, que conta a história de Melissa, uma mulher de 34 anos que decide se divorciar após descobrir que o marido não era quem todos pensavam ser e se vê diante de um recomeço não programado.
Saiba tudo sobre a vida e a obra de Jorge Vercillo, nesta matéria especial.
Viva os aniversariantes do dia e viva as canções que nos fazem refletir sobre a vida!

