Levantamento do VTV News mostra nomes cotados para disputar o Planalto pelo campo liberal-conservador; Lula e Ciro devem representar vertentes da esquerda
O cenário eleitoral para 2026 já começa a ganhar forma, com nomes da direita brasileira sendo articulados por partidos como PL, PSD, Republicanos e União Brasil. Entre os pré-candidatos, entre cotados e definidos, estão a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas, o governador do Paraná Ratinho Júnior, o governador mineiro Romeu Zema, o ex-ministro Ronaldo Caiado, o presidente do recém-criado Partido Missão, Renan Santos, e o ex-governador gaúcho Eduardo Leite.
A consolidação dessas candidaturas ocorre num contexto em que, segundo analistas, a polarização política se mantém como vetor central da disputa nacional, ainda que uma pequena parte do eleitorado tenha migrado para partidos do “centrão“, cujas posições tendem a ser pragmáticas e mais voltadas à governabilidade do que à fidelidade ideológica, outros se mantém fiéis aos seus líderes partidários.
A mais recente pesquisa de intenção de voto da Genial/Quaest indica que uma parcela considerável do eleitorado brasileiro se declara independente de ideologia partidária, grupo que reúne eleitores indecisos ou que pretendem votar em branco ou nulo.
Em alguns cenários analisados pelo levantamento — como na disputa pela Presidência da República — a soma de eleitores indecisos, brancos e nulos ultrapassa 18 pontos percentuais.


Nesse ambiente, os partidos da direita buscam se reorganizar e apresentar alternativas que mantenham a base mobilizada após o desgaste do ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje inelegível e preso por tentativa de golpe de Estado.
Quem são os candidatos da direita?
Tarcísio de Freitas (Republicanos), é um engenheiro e político brasileiro, atual governador de São Paulo e ex-ministro da Infraestrutura, com forte associação à direita política e alinhamento com figuras do bolsonarismo.
Até o ano passado, ele era o favorito para dar continuidade ao projeto “da direita no Brasil”, assumindo o lugar de Jair Bolsonaro. Entretanto, após a indicação do filho de Jair, Flávio Bolsonaro, para a candidatura majoritária, o futuro de Tarcísio era tido como incerto no tabuleiro político até a última semana, quando anunciou na coletiva de imprensa que “Meu nome a partir de agora é Flávio Bolsonaro”.
Tarcísio disse que concorrerá novamente ao governo do Estado de São Paulo, e irá apoiar Tarcísio nas eleições de 2026.


Já Flávio Bolsonaro (PL-RJ), atual senador pelo Rio de Janeiro, será, ao que tudo indica, o sucessor do pai, e o herdeira do espólio político e eleitoral do pai.
Tido como o mais “diplomático” entre os irmãos, Flávio ainda é lembrado sobre os supostos esquemas de rachadinha no seu gabinete. Seu nome é marcado por sucessivas controvérsias envolvendo supostas rachadinhas, suspeitas de lavagem de dinheiro, negociações imobiliárias atípicas e participação societária em empreendimentos investigados. O caso mais emblemático refere-se ao suposto esquema de desvio de parte dos salários de assessores de seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj.


Outros nomes da direita variam entre governadores de outros estados, dissidentes da direita mais jovem, que rompeu com o bolsonarismo em 2019 — como foi o caso do Renan Santos do MBL — e até a esposa de Jair Bolsonaro:
- Eduardo Leite (PSD), atualmente no comando do governo do Rio Grande do Sul, pode voltar a disputar o Planalto após ter renunciado ao cargo em 2022 com esse objetivo.
- Michelle Bolsonaro (PL), por sua vez, emergiu como liderança política desde que assumiu o PL Mulher, e tem sido testada como figura eleitoral com forte apelo entre o eleitorado bolsonarista.
- Romeu Zema (NOVO), após reeleição em Minas Gerais, é apontado como nome viável para representar a direita, por sua gestão liberal e discurso antipolítico.
- No Paraná, Ratinho Júnior (PSD) também figura como presidenciável, mantendo alto índice de aprovação e articulação com setores empresariais e evangélicos no estado em que governa.
- Ronaldo Caiado (União), que retorna ao debate nacional com apoio de produtores rurais e base conservadora, já anunciou sua pré-candidatura pelo União Brasil.
- Já o ativista Renan Santos (Missão), um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), lançará seu nome à disputa pelo recém-registrado Partido Missão, apostando em uma linguagem disruptiva jovem, e apelo às redes. Nas últimas pesquisas tem despontado com baixa adesão na intenção de votos, porém, sua presença em pesquisas eleitorais logo após a fundação do partido chamou atenção de alguns analistas, que veem o partido com potencial de adesão pública.
Do outro lado, a esquerda se reestrutura
Pelo campo da esquerda, dois nomes principais se destacam: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que poderá buscar a reeleição, e o ex-ministro Ciro Gomes, que agora retorna ao PSDB, retomando sua trajetória trabalhista por dentro de uma legenda de centro-esquerda. Contudo, Ciro, que ficou em quarto lugar em 2022, não anunciou sua intenção de disputar a presidência da república até então, mas tem aparecido como uma forte liderança para o governo do Ceará.
Luiz Inácio Lula da Silva é um líder histórico da esquerda brasileira, de origem sindical, fundador do Partido dos Trabalhadores e três vezes presidente da República, com governos marcados pela ampliação de políticas sociais e crescimento econômico nos anos 2000. Lula foi alvo da Justiça no caso da Lava-Jato na década de 2010, mas teve as condenações anuladas pelo STF e retornou ao Planalto em 2023.
Lula, aos 81 anos ao fim do mandato, buscará o quarto mandato presidencial, apoiado por uma grande ala da esquerda.


O problema do rótulo
Resumidamente, os termos esquerda e direita na política surgiram durante a Revolução Francesa, no fim do século XVIII, quando os representantes da Assembleia Nacional Francesa passaram a se sentar no plenário conforme suas posições políticas: à esquerda do presidente ficavam os parlamentares que defendiam mudanças profundas, como o fim dos privilégios da nobreza e do clero, enquanto à direita estavam os que apoiavam a manutenção da monarquia e da ordem tradicional.
Com o tempo, essa divisão espacial virou um rótulo político duradouro, associado, de forma geral, à defesa de reformas e maior igualdade social (esquerda), e à preservação de hierarquias, costumes e instituições existentes (direita), ainda que os significados tenham se transformado ao longo dos séculos, como no caso brasileiro.
Para contornar uma má interpretação dos termos ao se tratar de política doméstica, alguns especialistas optam pelas terminologias, “situação”, ao se referir ao governo, e “oposição”, para os contrários ao governante e sua base.


Para o socioólogo, Savio Machado, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (IFCH), a distinção entre direita e esquerda continua válida, embora os contornos ideológicos tenham se tornado mais fluidos no Brasil contemporâneo. Segundo ele, a chave para essa distinção está no entendimento sobre as teses para combater a desigualdade, a manutenção das hierarquias e mantimento do status quo:
“Defino esquerda e direita em termos de relação ao princípio do igualitarismo. Lula está no campo da esquerda; Bolsonaro, no da direita.”
Machado aponta que Lula representa uma esquerda desenvolvimentista, que incorpora o capitalismo e defende reformas graduais, enquanto Bolsonaro se posicionaria no campo da mais extremo da direita, com discurso anti-igualitário e mobilização de massa.
“Ele cria mídia própria, mobiliza diariamente e opera com base em lógica de massa — características que eram da esquerda clássica e hoje são apropriadas pela nova direita”, afirma.
O professor explica que tanto a extrema-esquerda quanto a extrema-direita radicalizam os princípios que sustentam seus campos. No caso da direita, a radicalização se expressa em discursos hostis a minorias e à integração global.
Na esquerda, por sua vez, há uma crítica aberta ao capitalismo e uma defesa do controle estatal sobre a economia. No Brasil, o foco da polarização atual está nas propostas econômicas e no papel do Estado e de segurança pública. Ainda assim, na avaliação do professor, os rumos das eleições em 2026 poderá contar com um fator externo, com as questões geopolíticas em curso, envolvendo Donald Trump e sua atuação na América Latina.

