Assis Valente é um dos maiores compositores da história da música popular brasileira. Nascido em Santo Amaro da Purificação, na Bahia, ele também foi desenhista e especialista em prótese dentária e – na década de 1930 – compôs os seus primeiros sambas, bastante incentivado pelo também compositor e cantor Heitor dos Prazeres.
Seu primeiro sucesso, ainda de 1932, foi “Tem Francesa no Morro”, cantado por Aracy Cortes, uma crítica bem-humorada da mania de se falar francês no Rio de Janeiro.
Seu trabalho foi um dos mais profícuos da música popular brasileira e consta que Assis Valente chegava a compor quase uma canção por dia – muitas delas vendidas a baixos preços para outros, que então figuravam como autores das canções.
Muitas de suas composições alcançaram o sucesso nas vozes de grandes intérpretes da época, como – principalmente Carmen Miranda– mas também Orlando Silva, Aracy de Almeida, Carlos Galhardo, Moreira da Silva, Almirante e muitos outros.
Com a grande popularização das marchinhas de Carnaval, ele inaugurou no país – em 1933 – a composição de músicas para outras datas festivas, como a música junina – com a famosa “Cai, Cai, Balão”, primeira música tipicamente junina gravada na história, em 1933, por Aurora Miranda – irmã de Carmen Miranda – e Francisco Alves.
1 – Cai Cai Balão
2 – Boas Festas
Assis Valente é também autor do clássico natalino “Boas Festas”, gravado em 1933 por Carlos Galhardo, abrindo portas para que outros compositores se dedicassem a esse tipo de composição.
A marchinha é uma das mais famosas músicas natalinas nacionais. Nela, Assis Valente fala sobre um natal que é realidade para muitos brasileiros: solitário e muito desigual.
A letra foi escrita como fruto de sua própria experiência:
“Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma Brincadeira de papel”.
Depois a canção foi regravada por diversos nomes da MPB, como Noite Ilustrada, Vanusa, Emilinha Borba, Ivan Lins, Zeca Baleiro, Maria Bethânia e Simone.
3 – Camisa Listrada
Uma outra canção de Assis Valente que fez muito sucessos na voz de Carmen Miranda e depois foi regravada por outras grandes cantoras da MPB – como Maria Bethânia, Elza Soares, Leci Brandão, MarleneeNá Ozzetti– foi “Camisa Listrada”, de 1937.
4 – Brasil Pandeiro
Assis Valente é responsável também pela composição de – nada mais, nada menos – do que o grande hino “Brasil Pandeiro”, samba-exaltação eternizado pelos Novos Baianos em 1972 e que tanto nos representa como povo e como país.
Ele compôs a canção em 1940, especialmente para Carmen Miranda interpretar – pois acreditava que não havia ninguém melhor para exaltar o samba e o povo brasileiro, além ter uma admiração e uma paixão muito grande pela Pequena Notável, como Carmen era conhecida.
Recém chegada dos Estados Unidos, a artista já havia gravado várias canções de Valente, mas não gostou muito de “Brasil Pandeiro” e a recusou, deixando o autor bastante chateado.
Então, a canção foi gravada pelo conjunto vocal e instrumental de samba e marchinha de carnaval, Anjos do Inferno, no ano seguinte, e fez bastante sucesso.
Mas, o auge mesmo ela atingiu quando foi gravada pelos Novos Baianos, em 1972, no antológico disco “Acabou Chorare , por sugestão do “mentor” do grupo, o também baiano João Gilberto.
João tinha apenas 10 anos quando “Brasil Pandeiro” foi lançada e a música de Assis Valente foi uma grande influência para ele.
A canção, de 1940, é uma afirmação da identidade nacional diante do imperialismo cultural praticado pelos EUA a partir da Segunda Guerra Mundial. Nesta época, o Brasil – recém saído da República Velha, oligárquica e escravagista – vivia um processo de definição em vários níveis: cultural, social, econômico.
Este processo acontecia em um momento de grandes transformações que colocavam o país no mundo industrial, urbano e capitalista, ao mesmo tempo em que a música brasileira – principalmente e o samba – fazia sucesso com o público norte-americano, na voz e nos filmes de Carmem Miranda.
Assis Valente em “Brasil Pandeiro” conclama o povo brasileiro a reconhecer seus próprios valores. Depois, em 1972 – no auge da ditadura militar – fazia todo o sentido os Novos Baianos regravarem a música.
Infelizmente, Assis Valente não viveu para ver isso. O baiano se suicidou no dia 06 de março de 1958, aos 46 anos de idade. O artista estava endividado e já havia tentado o suicídio outras duas vezes.
Em sua terceira tentativa de suicídio, todas por conta de dívidas, o compositor veio aóbito depois de ingerir formicida. Deixou um bilhete no bolso, em que pedia para que o amigo compositor, Ary Barroso, pagasse seus dois aluguéis atrasados e finalizava dizendo: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.”.
Após sua morte, Assis Valente caiu em esquecimento, para ser finalmente redescoberto nos anos 1960, e seguiu sendo regravado nas vozes de grandes intérpretes da MPB, como Chico Buarque, Elis Regina, Jair Rodrigues, Clara Nunes, Nara Leão, Adriana Calcanhotto, entre outros.
5 – Alegria
Uma artista contemporânea que gravou Assis Valente com sucesso foiVanessa da Mata, em seu álbum de estreia, lá em 2003, que trouxe a canção “Alegria”, de Valente em parceria com Durval Maia.
Assis foi autor, também, de peças para o teatro de revista, como “Rei Momo na Guerra”, de 1943, em parceria com Freire Júnior.
Hoje, 19 de março, seria aniversário do compositor.

