Jornalista especialista em cobertura internacional explica os impasses entre os países e interesses dos EUA na guerra
Entre declarações hostis, ataques aéreos e ameaças de uma guerra direta, Irã e Israel travam um embate que envolve história, religião, expansão e influência regional. No centro desse conflito, surge um terceiro ator fundamental: os Estados Unidos. Diante das movimentações desses três países, é preciso compreender como e por que os EUA apoiam diretamente os israelenses e atacam o território iraniano. Até a última segunda-feira (9), cerca de 1.700 pessoas haviam morrido durante a guerra.
Para entender os detalhes dessa história (marcada por lacunas e questionamentos muitas vezes obscurecidos pelo excesso de informações), o VTV News entrevistou a jornalista e escritora santista Adriana Carranca.
Especialista em cobertura internacional de conflitos, crises humanitárias e direitos humanos, Adriana atuou em países como Síria, Paquistão, Afeganistão, Iraque e Irã, além de ser cofundadora e diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Ela também é autora dos livros: O Afeganistão depois do Talibã (2011); Malala, a menina que queria ir para a escola (2015) e coautora de O Irã sob o chador (2010).


Antigos conflitos
De acordo com a especialista, Israel sempre viu o Irã como uma ameaça à própria existência, percepção intensificada após a Revolução Islâmica de 1979, que instituiu o regime dos aiatolás. O sistema teocrático (no qual líderes religiosos comandam o governo) assumiu o poder após uma série de protestos contra os xás (governantes monárquicos) e o então líder Mohammad Reza Pahlavi.
“Era uma monarquia muito alinhada com o Ocidente, mas que esbanjava muita riqueza; festas no Palácio Presidencial regadas a champanhe francesa, uma ocidentalização que talvez o Irã não estivesse preparado para aceitar. O Irã é o berço do Império Persa, então eles têm muito orgulho dessa ancestralidade e uma resistência a essa ocidentalização. Isso gerou oposição à monarquia e houve um momento em que se conseguiu fazer a transição para um início de democracia, que deu espaço para a eleição do primeiro-ministro Mohammed Mossadegh”.
Além da mudança de regime, a religião é um pilar central. Carranca pontua que “é uma questão de fundo religioso; o Irã nunca aceitou a criação do Estado de Israel, acreditando que muitos palestinos históricos foram expulsos de suas terras. Por outro lado, o Irã também se sente ameaçado existencialmente pelas monarquias do Golfo”.


Adriana explicou detalhes dos conflitos ao VTV News
A intervenção dos EUA
Ao falar desse conflito, a presença dos EUA é automática, dada sua influência econômica, comercial e militar. Mas qual é a origem dessa participação?
“Historicamente, os Estados Unidos têm um histórico de intervenção no Irã. O marco principal foi nos anos 50, quando o Irã elegeu democraticamente seu primeiro-ministro, Mohammed Mossadegh, e ele ousou nacionalizar o petróleo. Ele acabou deposto por um golpe financiado pelos EUA e pelo Reino Unido, que tinham interesses no petróleo iraniano”, esclarece a jornalista.
O golpe político, denominado Operação Ajax, resultou na prisão de Mossadegh por traição, condenando-o a viver o resto da vida sob prisão domiciliar.
“É um trauma que permanece até hoje. Quando se pergunta sobre os bombardeios atuais, muitos iranianos dizem não confiar nos EUA devido ao histórico de derrubada do movimento de Mossadegh.”


Após a queda de Mossadegh, a monarquia retomou o poder nos mesmos moldes anteriores, o que eventualmente abriu espaço para a Revolução Islâmica de 1979. Na época, o Aiatolá Khomeini estava exilado, pois clérigos eram perseguidos pelo regime monarca, mas a oposição interna viu nele a liderança necessária para derrubar a monarquia.
Interesses e escalada militar
No cenário atual, em 28 de fevereiro, os EUA e o Irã coordenaram um ataque em direção a Teerã, capital iraniana. Simultaneamente, outras quatro cidades registraram bombardeios. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra bases militares americanas instaladas na região.
O ataque em Teerã resultou na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Com o objetivo de controlar o país, dias depois o presidente Donald Trump direcionou misseis a Assembleia de Peritos para evitar que uma nova cúpula fosse eleita. Porém, no inicio de março o filho do Khamenei assumiu o cargo de líder supremo, substituindo o seu pai.
A tensão resultante afetou países vizinhos, com registros de impactos no Iraque, Líbano, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Bahrein, Catar, Omã e Jordânia. Adriana explica que não há motivos claros para a coordenação do ataque pelos EUA, visto que, um dia antes, os países estavam em negociação.
🚨 BREAKING NEWS l Irã inicia seus prometidos ataques utilizando drones navais contra dois navios petroleiros que estavam no mar do Golfo Pérsico, próximos do Porto Umm Qasr, no Iraque.pic.twitter.com/sTAX2HIubg
— Notícias Paralelas (@NP__Oficial) March 12, 2026
“O ataque pegou todos de surpresa, porque EUA e Irã negociavam na Jordânia na noite anterior, uma sexta-feira. O governo americano tem dado explicações contraditórias. Inicialmente, falaram da questão nuclear, mas o próprio presidente Donald Trump havia afirmado que um ataque anterior contra instalações iranianas tinha destruído praticamente toda a capacidade nuclear do país. Ou ele mentiu naquela época, ou está mentindo agora”.
Arsenais e o estoque de urânio
Segundo a ONU, estima-se que existam 12.500 armas nucleares no mundo. O relatório Status of the World’s Nuclear Forces 2025 aponta que nove nações possuem esse armamento: Rússia, EUA, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte.
Atualmente, Trump visa enviar forças especiais ao Irã para apreender o estoque de urânio enriquecido, sob a justificativa de desmantelar o programa nuclear local. Mídias do Oriente Médio indicam que o país possui cerca de 460 kg do material, enriquecido a 60% — valor ligeiramente inferior ao necessário para a produção de ogivas nucleares.
Estreito de Ormuz e o efeito dominó
O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima vital que conecta o Golfo de Omã ao Golfo Pérsico, situando-se entre o Mar Arábico e as maiores reservas de petróleo do mundo.
Após o início dos bombardeios, o Irã fechou a rota em retaliação e ameaçou afundar navios que tentassem atravessar o local. Segundo dados do governo americano, cerca de 20% do petróleo e gás mundial transitam por essa via, o que torna o bloqueio um problema de escala global.
Os conflitos iniciados há 13 dias já geram consequências extremas, como a disparada no preço do petróleo e uma apreensão generalizada quanto à estabilidade da economia global. Na última quarta-feira (11), a Guarda Revolucionária Islâmica, que controla o Estreito de Ormuz, ameaçou os Estados Unidos ao comunicar que o valor do barril pode atingir US$ 200,00 caso os ataques hostis persistam.
Nesse contexto, a análise final aponta para um cenário de perda coletiva:
“Independentemente do desfecho desta guerra, todos nós já perdemos. Trata-se de um conflito ilegal que viola as leis internacionais, as quais proíbem ofensivas contra países soberanos, exceto em casos de autodefesa real — a figura da ‘guerra preventiva’ não existe no direito internacional. Além disso, nos EUA, o presidente não possui poder absoluto para declarar guerra sem o aval do Congresso, rito que foi ignorado. O desrespeito a essas normas é grave, pois elas foram criadas justamente para evitar os horrores das grandes guerras mundiais, servindo hoje como o último anteparo contra massacres e abusos”, finaliza.

