Chico Science completaria 60 anos neste 13 de março de 2026. Sim, um dos principais criadores do movimento Manguebeat entraria na sua sexta década de vida, se não tivesse nos deixado tão cedo, aos 30 anos, em 1997, vítima de um acidente de carro.
Preparamos uma matéria especial para homenagear este cantor e compositor pernambucano tão importantes para a nossa cultura.
As influências que formaram Chico Science
Mesmo tendo vivido apenas 30 anos, Chico Science mudou para sempre a história da música popular brasileira.
Nascido Francisco de Assis França, em Olinda (PE), recebeu o nome artístico de Chico Science porque sempre gostou de mexer com a alquimia dos sons, como um cientista.
Chico cresceu ouvindo ritmos nordestinos como coco, ciranda, maracatu e embolada, mas também gostava muito de rock, jazz e soul music americana (uma das suas maiores influências era James Brown), além do hip-hop, tendo feito parte de um dos principais grupos de dança de rua do Recife: a Legião Hip-Hop.
Foi dessa mistura que surgiu, em 1991, a banda Chico Science & Nação Zumbi – da qual ele era líder – e que fazia um som revolucionário, com canções energéticas, muito bem elaboradas, que mesclavam funk rock com maracatu, embolada, psicodelia e música Afro.
Na verdade – antes disso, em 1987 – ele formou seu primeiro grupo musical, o “Orla Oribe”, um conjunto de black music, que acabou antes de completar um ano. Em seguida, criou a banda “Loustal” (em homenagem ao quadrinista francês Jacques de Loustal), que fazia uma mescla do rock dos anos 60 com o soul, o funk e o hip-hop.

Foi em 1991, que Chico Science conheceu o grupo afro de percussão de Olinda “Lamento Negro”, que faz um trabalho de educação popular na periferia do Recife, e reúne ritmos folclóricos como o maracatu rural e coco de roda com o samba-regue.
Com a fusão do Loustal e o Lamento Negro surgiu o grupo “Chico Science e Lamento Negro”, que depois foi batizado com o nome “Chico Science & Nação Zumbi”.
Sucessos de Chico Science & Nação Zumbi
Com a banda, Science lançou dois álbuns que conquistaram Disco de Ouro: “Da Lama ao Caos’’ (de 1994, considerado pela revista Rolling Stone Brasil o 13º melhor disco brasileiro de todos os tempos) e “Afrociberdelia” (de 1996, que também entrou para lista dos 100 melhores discos da música brasileira de todos os tempos, na posição 18).
No primeiro álbum de Chico Science & Nação Zumbi, estão sucessos como os a seguir, todas composições solo de Chico Science:
A Cidade
A Praieira
Samba Makossa
Da Lama Ao Caos
Risoflora
Já o segundo álbum, conta com os clássicos:
Maracatu Atômico (de Jorge Mautner e Nelson Jacobina)
Macô
(parceria de Chico Science com Jorge Du Peixe e Eduardo BiD e com participação de Gilberto Gil e Marcelo D2)
Manguetown
(parceria de Chico Science com Lúcio Maia e Dengue)
A criação do Manguebeat
Chico Science foi também um dos principais colaboradores do movimento de contracultura “Manguebeat” nos anos 90.
O movimento – que teve início com o “Manifesto Caranguejos com Cérebro” escrito por Science e Fred Zero Quatro (do grupo Mundo Livre S/A), em 1991 – além de trazer as inovações musicais já citadas – também preza pela valorização das culturas regionais nordestinas, pelo desenvolvimento de um senso local de identidade própria para a criação de melhores condições de vida da população da região e pelo estado de conservação do manguezal e sua melhor exploração.
O “Manguebeat” é representado por um caranguejo – animal típico dos mangues e fonte de alimentação para as comunidades locais – e também por uma antena parabólica na lama, que mostra – além presença da tecnologia como marca do movimento – que os caranguejos presentes no manguezal estavam antenados com tudo que acontecia ali.
O movimento “Manguebeat” se desenvolveu nas cidades do Recife e Olinda, e logo entrou na cena musical do país. Além da mistura dos ritmos, o grupo desenvolveu uma forma própria de exprimir visualmente essa mistura, com o uso do chapéu de palha, típico da cultura pernambucana, o óculos escuro, camisas estampadas, tênis e colares coloridos.
O grupo se identifica com o movimento estético afrofuturismo, que une elementos africanos e ficção científica, e influenciou uma geração de artistas que veio depois.

O site 365 Canções Brasileiras analisa a canção “Manguebeat”, parceria de Chico Science comLúcio Maia eDengue, como a descrição precisa e – ao mesmo tempo – poética, de uma cena banal: catar caranguejo no manguezal de Recife.
“O enunciador está, sob o sol ardendo na moleira, lutando pela sobrevivência, ao mesmo tempo em que analisa o absurdo da situação: sua franca desvantagem até em relação aos urubus que o observam. Estes, ao menos possuem casa e asas; ele, nenhuma das duas coisas. Seu lar é a cena degradada e nauseabunda que só adquire algum glamour – ao olhar alheio – quando nomeada à moda estadunidense: “Manguetown”.
E o único alívio, diante desse cotidiano degradado, é a diversão casual, com a perspectiva de, quem sabe, encontrar a companheira ideal no passeio noturno – quem irá, apenas, ajudar a reproduzir (literalmente) a situação de miséria que o sujeito já vivencia. (… a pobreza e a animalização do ser humano só poderia ser denunciada com a transmutação da lama do mangue em arte elétrica. Chico Science era mesmo um vanguardista.”
Depois da morte de Chico Science – em um inesperado acidente de carro, em fevereiro de 1997, com apenas 30 anos de idade – a banda Nação Zumbi (que segue firme até os dias de hoje) lançou um disco em homenagem ao artista: o “CSNZ”, de 1998.
É um álbum duplo com canções inéditas de estúdio, gravadas ao vivo com o próprio Chico e remixagens das suas músicas segundo visões de nomes como David Byrne e Arto Lindsay. No final, há ainda uma canção feita especialmente para Science, pelo músico inglês Goldie: “Chico – Death of a Rockstar”.

Também depois de sua morte, Chico Science ganhou algumas homenagens pelas ruas de Recife: além de um Memorial formado por três salas, que conta a sua história, há uma estátua sua na Rua da Moeda, no Recife Antigo, e um caranguejo metálico gigante na Rua Aurora, onde morou.
Chico Science segue vivo em cada brasileiro e brasileira. Viva os seus 60 anos de história!

