Uma das doenças que mais mata no mundo pode estar diante de um avanço promissor no tratamento. Pesquisadores espanhóis desenvolveram uma terapia combinada capaz de eliminar tumores de pâncreas em testes com camundongos, marcando um passo relevante na evolução das estratégias contra o câncer.
O estudo foi conduzido por pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Oncológica da Espanha (CNIO), sob a coordenação de Mariano Barbacid, e publicado em dezembro de 2025 na revista científica PNAS. O trabalho tem Vasiliki Liaki e Sara Barrambana como primeiras autoras, com participação de Carmen Guerra e do próprio Barbacid entre os pesquisadores responsáveis pela pesquisa.
Além de provocar a regressão completa dos tumores, o método desenvolvido pelo grupo também conseguiu impedir o desenvolvimento de resistência ao tratamento, um dos principais desafios da oncologia moderna.
Os resultados mostraram que, em diferentes modelos animais, os tumores desapareceram entre três e quatro semanas, reforçando o potencial da combinação de medicamentos como caminho para futuras terapias mais eficazes.
Entenda o câncer de pâncreas
Considerado um dos cânceres mais letais da atualidade, o câncer de pâncreas ainda representa um enorme desafio para a medicina. O tipo mais comum da doença, o adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC), costuma ser descoberto tardiamente, quando as opções de tratamento já são limitadas.
Por esse motivo, a taxa de sobrevida em cinco anos é baixa , em torno de 10% no mundo, e no Brasil, a doença está entre as que apresentam maior índice de mortalidade, com poucos pacientes chegando com diagnóstico a tempo de realizar cirurgia curativa.


Parte dessa agressividade está ligada a uma característica genética muito frequente nesses tumores. Na maioria dos casos, o PDAC apresenta uma mutação no gene KRAS, que passa a funcionar como um interruptor permanentemente ligado, estimulando a multiplicação das células cancerígenas.
Esse “erro” genético torna o tumor altamente adaptável e resistente, dificultando o sucesso de tratamentos que atuam em apenas um alvo terapêutico.
O estudo feito em camundongos
O estudo, realizado em camundongos, avaliou uma estratégia que combina três medicamentos para bloquear diferentes vias usadas pelo câncer de pâncreas para se manter ativo e driblar o tratamento. A técnica resultou em redução significativa e duradoura dos tumores, além de impedir o desenvolvimento de resistência, um problema comum nesse tipo de câncer.
A combinação testada inclui:
- Daraxonrasib – que atua diretamente no bloqueio do sinal do gene KRAS
- Afatinib – inibe os receptores EGFR e HER2, ligados à sobrevivência tumoral
- SD36 – degrada a proteína STAT3, associada à resistência e progressão do câncer
Futuro do tratamento
Apesar dos resultados promissores, os dados ainda são pré-clínicos e não indicam até o momento, aplicação direta em humanos.
Geralmente, o avanço das técnicas descobertas em animas para os humanos costumam exigir protocolos extensos, como: ajustes de dose e formulação, validação adicional em modelos complementares, planejamento regulatório e financiamento para ensaios de fase inicial.
No entanto, por se tratar de uma doença que anualmente consome milhares de vidas em todo o mundo, cada avanço em pesquisas médicas e laboratoriais renova as expectativas por novos tratamentos, com a esperança de que, no futuro, se chegue à cura.

