Não existe a possibilidade de você ter escutado ou assistido Elis Regina cantando “Atrás da Porta” e não ter se emocionado.
A canção é uma das interpretações mais arrebatadoras na voz de uma das maiores cantoras da história do nosso país e faz qualquer um arrepiar! Hoje, trouxemos algumas curiosidades sobre “Atrás da Porta” para vocês.
“Atrás da Porta” – Primeira parceria de Chico Buarque e Francis Hime
“Atrás da Porta” é a primeira parceria de Chico Buarque com o arranjador, compositor e pianista carioca Francis Hime. Depois dela, vieram muitos outros imensos sucessos dos dois, como: “Meu Caro Amigo” (1976), “Trocando em Miúdos” (1977)e “Vai Passar” (1984).
No início dos anos 70, Chico estava passando férias na casa de Francis e sua esposa, a cantora Olívia Hime, em Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, e eles estavam dando uma festa para alguns amigos.
Todos estavam muito animados, cantando e tocando, quando Francis Hime começou a tocar uma melodia ao piano.
Chico gostou da canção e começou a escrever a letra ali mesmo, no meio de todo mundo, coisa que ele não costumava fazer. O artista conta que foi escrevendo, até que a inspiração acabou: “Naquele tempo a gente bebia muito. Não sei se acabou o whisky ou acabou o porre, mas a letra ficou inacabada. Foi só até a metade.”.

A obra incompleta ficou esquecida por um tempo, até que um dia Francis Hime – morando em Los Angeles, nos Estados Unidos, ligou para Chico Buarque para dizer que Roberto Menescal – produtor do disco que Elis Regina estava gravando – tinha mandado para ele uma gravação da cantora cantando “Atrás da Porta” até a parte onde tinha letra e o resto já orquestrado esperando a letra para ser incluída na voz de Elis.
Foi só aí que, Chico, já em cima do arranjo do pianista, compositor, produtor e arranjador musical César Camargo Mariano para o disco “Elis“, de 1972, inseriu a segunda parte da música, aquela que diz:
“Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua”
Elis Regina leva uma emoção pessoal para a interpretação de “Atrás da Porta”
A interpretação magistral de Elis Regina para “Atrás da Porta” traz muito de uma vivência pessoal da cantora na época em que resolveu gravar a canção.
Quando Elis escutou “Atrás da Porta” pela primeira vez, ficou maravilhada. Por isso que ela resolveu gravar a canção mesmo com a letra incompleta: ela sabia que seria uma forma de pressionar Chico Buarque a fazer a segunda parte da canção. E foi o que aconteceu!
Acontece que a antológica gravação de Elis Regina foi influenciada pelo momento afetivo que ela vivia. Em 1972, a cantora havia se separado de seu primeiro marido, o compositor, jornalista e produtor musical Ronaldo Bôscoli – pai de seu primeiro filho, João Marcello Bôscoli – e estava passando por um momento de dor profunda, depois de um relacionamento conturbado, que durou cinco anos.
Por isso, a letra da música, que fala exatamente sobre uma separação, a tocou tanto:
“Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama”

Essa história é contada pelo jornalista compositor, escritor, roteirista e produtor musical Nelson Motta, no seu livro “Noites Tropicais” (Editora Objetiva, 2000):
“No Verão de 1972, Elis se separou mesmo de Ronaldo, num divórcio tão previsível quanto tempestuoso […] Roberto Menescal voltou a produzir seus discos, agora com a direção musical e o piano de César Camargo Mariano […] Elis e César ficaram apaixonados pela música e a gravação foi marcada para dentro de três dias.
Nesse meio tempo, Menescal e Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de Ronaldo, sozinha na casa branca da Niemeyer [avenida em que a cantora morava na época, no Rio de Janeiro]Elis resolveu fazer uma sessão de cinema, convidando alguns amigos, entre eles César.
Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi ao banheiro ler e se espantou: era um “torpedo” amoroso. Atônito, César leu e releu, acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar nenhum, os amigos se preocuparam.
Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de “Atrás da Porta”.
Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no ato”.
Elis Regina e César Camargo Mariano se casaram em 1973 e tiveram dois filhos: Pedro Mariano e Maria Rita, permanecendo juntos até 1981, ano anterior à morte da cantora, aos 36 anos.

