Você conhece Doris Monteiro, cantora e atriz descrita por renomados críticos musicais como a cantora que tem “a bossa de quem já nasceu sabendo” e símbolo de “modernidade já atemporal” no universo da música brasileira?
Com mais de 20 LPs lançados (além dos mais de 20 discos de 78 RPM) ao longo de quase 70 anos de carreira, a carioca Doris Monteiro que nos deixou em 2023, hoje completaria 90 anos e – por isso – nós preparamos uma matéria especial para que você conheça mais sobre a sua vida e obra.

Sobre Dóris Monteiro – O início da carreira
Doris Monteiro começou a despontar para o público aos 15 anos, cantando em programas de calouros no rádio, o primeiro deles o programa “Papel Carbono”, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O ano era 1949 e o samba-canção consagrava cantores com vozes potentes e repertório de dor de cotovelo.
Doris Monteiro, porém, tinha a voz suave e emprestava charme e frescor às canções, privilegiando também letras mais alegres e firmando-se como precursora de um estilo que viria a ter destaque mais pra frente na Bossa Nova. Ela é, aliás, considerada uma das mais expressivas cantoras da transição do samba-canção para a Bossa Nova.
A artista tem um papel importante na história da música brasileira ainda por ter ajudado a projetar – com sua voz – vários grandes compositores ainda no início de carreira, como Tom Jobim e Dolores Duran (autores da canção “Se É Por Falta de Adeus”, lançada por Doris Monteiro em 1955); Billy Blanco (autor de “Mocinho Bonito”, de 1957 ), Sidney Miller (autor de “Alô Fevereiro”, de 1972).
No começo dos anos 50, Doris fez um estágio de um mês na Rádio Guanabara, onde foi crooner da Orquestra Napoleão Tavares e Seus Soldados Musicais e, aos 16 anos, foi contratada pela Rádio Tupi, onde trabalhou por oito anos. Nesta época, também trabalhou por alguns meses como crooner no Copacabana Palace.
Cada vez mais conhecida, a cantora despertou o interesse da gravadora Todamérica, que a contratou para produzir seu primeiro disco 78 RPM, em 1951, que contou com a canção “Se Você se Importasse” (de Peterpan); no lado A, e – no lado B – “Fecho Meus Olhos, Vejo Você”, de José Maria de Abreu.
Sua gravação de “Se Você se Importasse” ficou cinco meses no topo das paradas de sucesso, lançando Doris ao estrelato na música brasileira.
O auge do sucesso
Os anos 50 marcam a consagração de Doris Monteiro em todo o Brasil. A cantora produziu vários discos em 78 RPM naquela década, com músicas de compositores como Wilson Batista e Jorge de Castro; Tom Jobim e Dolores Duran; e Antônio Maria e Vinicius de Moraes, para citar alguns.
Assim que sua voz tornou-se conhecida no Brasil inteiro, Doris Monteiro foi convidada a fazer cinema, participando de dez filmes ao longo da sua carreira, e atuando com nomes como Mazzaroppi, José Lewgoy e Tônia Carrero. Em 1953 ganhou o prêmio de Melhor Atriz no I Primeiro Festival de Cinema, por sua interpretação no filme “Agulha no Palheiro”, de Alex Viany.
A cantora e atriz lançou então o seu primeiro LP – “Vento Soprando” – em 1954, com sucessos como “Graças a Deus” e “Dó-Ré-Mi” (ambas de Fernando César) e “Joga a Rede no Mar” (de Fernando César e Nazareno de Brito).
Sucesso no rádio e no cinema, em meados dos anos 50 a artista também se tornou uma das estrelas da TV Tupi, apresentando o programa semanal “Encontro com Doris Monteiro”.
Nesta época, seu repertório ganhou novas tonalidades, deixando de ficar restrito ao samba-canção e ao bolero, por influência do músico e compositor Billy Blanco. Ele aconselhou a artista a interpretar músicas com mais balanço, mais próximas do samba e com o canto mais “suingado”.
Em 1956, Doris Monteiro foi eleita Rainha do Rádio, em um concurso da Associação Brasileira do Rádio.
Nos anos 1960, com a técnica vocal mais amadurecida, a cantora mergulhou de vez em um repertório moderno, cheio de charme e suingue. Em 1961, lançou o LP “Doris Monteiro”, com dois grandes sucessos: “Palhaçada” e “Fiz o Bobão”, ambas de Luís Reis e Haroldo Barbosa.
O então diretor-artístico da sua nova gravadora, a Philips, Armando Pittigliani pediu para Doris gravar músicas da Bossa Nova e no LP de 1962, “Gostoso é Sambar”, já começam a aparecer entre os compositores, nomes do movimento musical como Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (“Nós e o Mar”); e Carlos Lyra e Vinicius de Moraes (“Você e Eu”).
No álbum “Doris Monteiro”, de 1964, considerado “o mais Bossa Nova” de toda a sua carreira, a cantora gravou “Samba de Verão”, “Deus Brasileiro”, “E Vem o Sol” e “Razão de Amor”, todas dos irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, além dos sucessos “Sambou, Sambou” (de João Donato e João Mello) e “Diz que Fui Por Aí” (de Zé Keti e Hortêncio Rocha).
Doris Monteiro foi também uma das primeiras artistas renomadas a gravar o então jovem compositor Chico Buarque: a canção “Meu Refrão”, no álbum “Simplesmente”, de 1966.
Em 1969, um ano depois de lançar “Mudando de Conversa” (de Maurício Tapajós e Hermínio Bello de Carvalho) em um compacto simples, a cantora batizou o seu novo LP com o mesmo nome da música, que se tornou um clássico de seu repertório. O hit ficou cerca de cinco meses nas paradas e o disco foi recordista de vendas.
Para o jornalista e historiador Rodrigo Faour, neste álbum Doris mostrou-se “uma intérprete mais madura e versátil, sem se prender a rótulos de cantora de bossa ou de samba-canção. Aliás, daí por diante, Doris seria da MPB, sem restrições”.
Maturidade artística
Ao longo dos anos 70, Doris Monteiro foi se tornando uma cantora cada vez mais madura e mais versátil. Passou a gravar nomes como Jorge Ben Jor, Carlos Imperial, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, todos cheios de “sambalanço”.
Em 1971, a cantora lançou “Doris”, cultuado disco em que apresenta três canções que marcam para sempre seu repertório: “É Isso Aí” (Sidney Miller); “De Pilantra e de Poeta” (Alberto Land); e “Conversa de Botequim” (parceria de Noel Rosa com Vadico).
Ao longo da década, gravou mais cinco álbuns solo nos quais ampliou ainda mais o leque de compositores e diversificou o repertório. Também lançou discos em parceria, como os quatro famosos LPs com o cantor Miltinho, todos intitulados “Doris, Miltinho e Charme”, de 1970 a 1973.
Em 1977, Doris Monteiro foi convidada a participar do “Projeto Pixinguinha” fazendo dupla com seu ídolo de infância, Lúcio Alves. Deste trabalho nasceu o disco “Doris e Lúcio”, lançado no ano seguinte com 12 faixas, todas já consagradas naquela época entre os grandes sucessos da música brasileira.
O último lançamento da cantora – que seguiu ativa até os seus últimos anos de vida – foi o álbum “As Divas do Sambalanço”, ao lado de outras duas cantoras do gênero: Claudette Soares e Eliana Pittman.

Até 2020, o último disco solo lançado pela cantora datava de 1981. A artista seguiu fazendo shows e, em 1990, a convite da cantora nipo-brasileira Lisa Ono, realizou uma turnê no Japão com Johnny Alf, apresentando-se em teatros de Osaka, Nagoya e Tóquio.
Em 2004, para marcar a comemoração de seus 70 anos, foi presenteada pelas gravadoras Universal e EMI com o relançamento em CD de doze de seus melhores discos.
Em 2010, juntamente com o saxofonista Aurino Ferreira, foi homenageada na Calçada da Fama de Ipanema, diante de uma plateia de quase mil pessoas.

