A música pode ser uma grande aliada na hora de praticar exercícios físicos. Seja para espantar a preguiça, manter o ritmo da corrida ou tornar o treino mais prazeroso, uma boa playlist ajuda a transformar a experiência da atividade física. Mas será que existe um estilo musical ideal para cada modalidade? E até que ponto as canções podem influenciar o desempenho esportivo?
Um estudo publicado pelo pesquisador Costas I. Karageorghis aponta que a música pode contribuir para melhorar o humor, diminuir a percepção de cansaço e ajudar a manter o ritmo durante a prática esportiva.
Um dos fatores que merecem atenção é o BPM, sigla em inglês para beats per minute, ou batidas por minuto. O conceito permite avaliar o andamento de uma música e sua possível relação com a cadência dos movimentos realizados durante o exercício.
A ideia é encontrar uma trilha sonora que combine com a intensidade e o ritmo da atividade. No entanto, a escolha não depende apenas de números: as preferências pessoais e as emoções despertadas por cada canção também têm papel importante.
Como a música influencia o desempenho físico?
A música pode tornar o exercício mais agradável e ajudar a manter a disposição, mas isso não significa que seja indispensável para alcançar bons resultados.
Sérgio Gregorio da Silva, professor e diretor do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), explica que as canções podem influenciar tanto a maneira como a pessoa se sente quanto o ritmo escolhido para se exercitar.
Segundo o especialista, a música ajuda a aumentar a motivação e a tornar a atividade mais prazerosa. Por outro lado, treinar sem fones de ouvido não significa ter um desempenho inferior.
A musicoterapeuta Cléo Monteiro França Correia, do Setor de Neurologia do Comportamento e colaboradora do Departamento de Neurologia e Neurocirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), destaca a relação entre os estímulos musicais e o funcionamento cerebral.
De acordo com a especialista, a música pode favorecer a neuroplasticidade e ativar redes cerebrais sensoriomotoras. As batidas também podem contribuir para a motivação, o bem-estar psicológico e a frequência cardíaca, além de ajudar a desviar a atenção do esforço físico.
Na prática, isso significa que uma pessoa pode sentir menos desconforto ao se exercitar ouvindo suas músicas favoritas, mesmo que continue realizando os movimentos com a mesma intensidade.
A musicoterapeuta ressalta, porém, que a música não elimina os sinais de fadiga. O que acontece é uma mudança na maneira como o esforço é percebido, favorecendo a sensação de bem-estar e tornando o treino mais agradável.
BPM: o ritmo da música faz diferença no treino?
O andamento musical pode influenciar a cadência dos movimentos em determinadas atividades físicas. Entretanto, não existe um número de batidas por minuto que seja ideal para todas as pessoas ou modalidades.
Sérgio Gregorio da Silva explica que estudos realizados na área da ginástica aeróbica identificaram uma relação entre o andamento das músicas e a frequência cardíaca quando as canções orientam o ritmo dos movimentos.
A escolha da playlist, portanto, pode considerar a modalidade praticada e a cadência desejada. Confira algumas referências de BPM e exemplos de músicas que podem acompanhar diferentes tipos de exercício.
Caminhada
Para uma caminhada em ritmo confortável, músicas entre 100 e 130 BPM podem ajudar a acompanhar os passos.
Entre as opções estão Don’t Start Now, de Dua Lipa, com 124 BPM, e Poker Face, de Lady Gaga, com 119 BPM.
Corrida
Para quem busca uma cadência de 160 a 180 passos por minuto, músicas entre 160 e 180 BPM podem ajudar a acompanhar o movimento. Faixas entre 80 e 90 BPM também podem funcionar, dependendo da relação entre as batidas musicais e os passos.
Alguns exemplos são Blinding Lights, de The Weeknd, com 171 BPM, e Já Faz Tanto Tempo, parceria de Lulu Santos com Fresno, com 180 BPM.
Ciclismo
No ciclismo, para uma cadência de 70 a 90 rotações por minuto, podem ser utilizadas músicas entre 70 e 90 BPM ou entre 140 e 180 BPM, conforme a forma como o ritmo musical se relaciona com a pedalada.
Entre as sugestões estão I Wanna Be Sedated, dos Ramones, com 163 BPM, e Dog Days Are Over, da banda Florence + The Machine, com aproximadamente 150 BPM.
Treino intervalado de alta intensidade (HIIT)
Para o HIIT, que alterna períodos de esforço intenso e recuperação, não há uma faixa de BPM comprovadamente ideal para todas as situações.
Nesse caso, a recomendação é priorizar músicas que transmitam energia e motivação. Canções como Born to Run, de Bruce Springsteen, e Run the World (Girls), de Beyoncé, podem ajudar a criar o clima desejado para o treino.
Yoga
No yoga, não existe um andamento musical considerado ideal. A escolha depende do estilo da prática e das preferências de cada pessoa.
Músicas tranquilas podem contribuir para criar um ambiente de relaxamento e concentração, enquanto o silêncio também pode ser uma opção adequada.
É importante lembrar que essas referências são orientações gerais. A escolha deve considerar o condicionamento físico, o conforto e os objetivos de cada praticante.
Qual é o estilo musical favorito dos brasileiros durante o treino?
Embora o BPM possa ajudar na escolha das músicas, a preferência pessoal continua sendo um dos fatores mais importantes para montar uma playlist.
Uma pesquisa da Maximum Boxing citada na reportagem aponta o pop como o gênero musical favorito dos brasileiros durante os exercícios, mencionado por 56,2% dos participantes. Na sequência aparecem música eletrônica, com 42%; rock e metal, com 35%; e sertanejo, com 31,2%.
O levantamento também destaca os artistas mais lembrados pelos entrevistados quando questionados sobre quem não pode faltar na playlist de treino: Alok, Anitta e Henrique & Juliano.
Os números reforçam que não existe um único estilo musical capaz de agradar a todos. Enquanto algumas pessoas preferem batidas eletrônicas e músicas dançantes, outras encontram motivação no rock, no pop ou no sertanejo.
Mais do que seguir uma tendência, a ideia é encontrar canções que ajudem a manter a disposição e tornem a atividade física uma experiência prazerosa.
Energia e emoção também contam na escolha da playlist
Para o produtor musical e compositor Hitmaker, conhecido por sucessos que animam pistas de dança e academias, a influência da música vai muito além da velocidade das batidas.
Segundo ele, a energia transmitida pela letra, pelos instrumentos e pelas variações rítmicas pode ser tão importante quanto o BPM.
Hitmaker também estabelece uma comparação entre a dinâmica de seus shows e a organização de uma sessão de exercícios. Em suas apresentações, ele costuma começar com músicas animadas, fazer uma pausa para o público cantar e recuperar o fôlego e, depois, voltar a elevar a energia.
A mesma lógica pode ser aplicada à playlist de treino. Uma seleção musical pode começar com faixas mais tranquilas durante o aquecimento, ganhar intensidade na parte principal dos exercícios e acompanhar o ritmo de cada etapa da atividade.
O produtor ressalta, ainda, que a escolha das músicas deve levar em conta o estado emocional de quem vai treinar.
Ele conta que já tentou fazer musculação ouvindo músicas de Alcione durante uma pesquisa musical, mas acabou se emocionando no meio da série de exercícios.
A experiência ilustra como determinadas canções podem despertar lembranças e sentimentos que nem sempre combinam com a disposição necessária para aquele momento.
Para Hitmaker, o ideal é escolher músicas que ajudem a entrar no clima do treino e deixem de lado, ao menos por alguns instantes, as preocupações do cotidiano.
Como montar uma playlist para se exercitar?
A escolha da trilha sonora pode ser feita de acordo com a modalidade esportiva, a intensidade do exercício e as preferências individuais. Algumas estratégias ajudam a tornar a experiência mais agradável:
- Comece com músicas mais tranquilas: faixas de menor intensidade podem acompanhar o aquecimento e ajudar na preparação para o exercício.
- Aumente a energia gradualmente: músicas mais animadas podem contribuir para manter a motivação durante a parte principal do treino.
- Considere o ritmo da atividade: em modalidades que dependem da cadência, como corrida e ciclismo, o BPM pode servir como referência.
- Priorize suas preferências: uma música que desperta emoções positivas pode ser mais motivadora do que outra escolhida apenas pela velocidade das batidas.
- Adapte a playlist ao seu estado emocional: em dias de pouca disposição, vale apostar em canções que ajudem a recuperar o ânimo.
Também é importante ter atenção à segurança. Em ambientes externos, como ruas e parques, o volume dos fones deve permitir perceber sons do entorno, especialmente durante corridas e caminhadas em locais com trânsito.
Música, movimento e conexão pessoal
A música pode ajudar a afastar o tédio, melhorar o humor e diminuir a percepção de esforço durante a atividade física. Isso não significa, porém, que ela elimine a fadiga ou garanta, por si só, melhores resultados esportivos.
O efeito depende de diferentes fatores, como o tipo de exercício, a intensidade da atividade, a preferência musical e a resposta individual aos estímulos sonoros.
Por isso, mais importante do que encontrar uma fórmula universal é descobrir quais músicas ajudam cada pessoa a se sentir bem e a manter a regularidade nos exercícios.
Como resume Hitmaker, o segredo está em encontrar uma conexão entre a música, o esporte e o próprio ritmo de vida.
Afinal, uma boa playlist não precisa seguir apenas as batidas por minuto. Ela também pode acompanhar o humor, despertar emoções positivas e transformar a vontade de ficar parado em motivação para se movimentar.
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