A música brasileira sempre teve um poder fascinante: consegue ser profundamente local e, ao mesmo tempo, universal. Músicas que nasceram nas rodas de samba, na influência percussiva africana, nas ladeiras do frevo ou nos encontros da Bossa Nova, não se limitaram às fronteiras do país. Eles viajaram o mundo, seduzindo ouvintes que nem falam português, mas que se rendem à melodia, à harmonia, ao ritmo e à poesia das nossas canções.
Quando uma música brasileira é reinterpretada em outro idioma, ela ganha novas cores, novos arranjos e até novos significados, mas – essa capacidade de atravessar fronteiras apresenta versões que – mesmo traduzidas, mantêm a força expressiva do Brasil. E é isso que nos faz únicos. Somos a melhor música do mundo!
É como se o clássico se transformasse ao entrar em contato com outras culturas, mantendo sua essência mas se abrindo para um diálogo global. Assim, cada versão estrangeira é uma ponte entre Brasil e mundo: uma prova de que nossas canções possuem tanto uma dimensão afetiva quanto uma dimensão estética universal.
É por isso que selecionamos algumas canções que nasceram aqui e, ao longo das décadas, conquistaram versões internacionais que ajudaram a espalhar a música brasileira pelo planeta. Cada história revela não apenas a beleza da canção original, mas também como ela se adapta, se reinventa e se conecta com públicos diversos.
Quando um clássico da MPB é recriado em outra língua ou por artistas de outras culturas, não se trata apenas de tradução: é o reconhecimento da força poética e musical do Brasil. Falamos a partir da nossa cultura, mas ampliamos o nosso alcance, conseguindo dialogar com qualquer lugar do planeta.
O Brasil que o mundo canta: 4 canções que ganharam versões internacionais
1 – Garota de Ipanema (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)
Não tem como falar em versões internacionais de canções nacionais sem começar pela mais importante de todas elas: “Garota de Ipanema”, a músicabrasileira mais regravada da história e a segunda mais regravada do mundo todo, ficando atrás somente de “Yesterday”, dos ingleses The Beatles.
Composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, em 1962, e lançada em disco pela primeira vez pelo cantor Pery Ribeiro, em 1963, “Garota de Ipanema” ganhou o mundo na voz de João Gilberto – o Pai da Bossa Nova – e, especialmente, na versão em portugês/inglês – “The Girl from Ipanema”.
Com letra em inglês do norte-americano Norman Gimbel a música foi interpretada por Astrud Gilberto e o saxofonista de jazz norte-americano Stan Getz, no álbum “Getz/Gilberto”, que ganhou o Grammy Award de “Álbum do Ano”, em 1965.
O sucesso estrondoso da canção nos Estados Unidos, Europa e Japão fez da Bossa Nova um gênero global, e “Garota de Ipanema” também ganhou o Grammy Awards de “Gravação do Ano”.
Ao longo das décadas, a música foi regravada e interpretada por astros internacionais como Frank Sinatra, Cher, Madonna e Amy Winehouse.
2 – Águas de Março (Tom Jobim)
Ao lado de João Gilberto, Tom Jobim foi um dos grandes responsáveis por popularizar a música popular brasileira no mundo, por meio da Bossa Nova.
Sua canção “Águas de Março” é considerada uma das mais importantes músicas brasileiras de todos os tempos e atravessou as fronteiras do país ao ganhar uma versão em inglês, composta pelo próprio Tom, “Waters of March”, e lançada por Sérgio Mendes (outro brasileiro que fez muito sucesso internacional, já vamos chegar nele!), em 1974.
A cançãooriginal em portuguêsfoi lançada inicialmente em 1972, no compacto simples “Disco de Bolso” do jornal “O Pasquim”, “O Tom de Antônio Carlos Jobim e o Tal de João Bosco”, “Águas de Março” foi gravada a seguir por Tom Jobim, no seu LP “Matita Perê”, do ano seguinte.
Em 1972, Elis Regina também já tinha incluído a canção em seu álbum “Elis”, mas a versão mais conhecida dessa música, que ganhou o Brasil e o mundo é a do antológico álbum “Elis & Tom”, um encontro entre duas das maiores lendas da música brasileira.
Quando Tom Jobim compôs a versão em língua inglesa da canção, o maestro manteve a estrutura e foi muito fiel à letra, mantendo também a metáfora central do significado da letra, ele estava passando por uma depressão e construindo uma casa na serra. Contamos a história completa de “Águas de Março” aqui nesta matéria especial.
Só não deu para traduzir para o inglês palavras que faziam referências específicas à cultura brasileira, como “festa da cumeeira”, “garrafa de cana” e “Matita Pereira”:
Tom Jobim contou em uma entrevista de 1986, para o programa “Persona”, do jornalista Roberto D’ávila, pela TVE Brasil, que deu bastante trabalho traduzir a letra, exatamente por conta dessas palavras, mas que ele usou bastante o dicionário de inglês-português para isso.
É engraçado que ele, lá em 1986, prevê aquilo que depois veio a ser o “Google Tradutor” e outras ferramentas online de tradução tão acessíveis à nossa época de hoje: “Eu queria te um computador – isso já deve existir na américa há muitos anos – em que você escrevesse uma palavra no teclado e ela aparece traduzida em cinco línguas na hora!”.
Ele também conta que uma coisa curiosa foi o fato de os norte-americanos terem compreendido totalmente o sentido da música, mesmo março não sendo um mês de chuvas que fecham o verão para eles:
“No hemisfério norte as águas de março são as águas do degelo, quando termina o inverno e se aproxima a primavera. Os rios que estavam parados, congelados, começam a andar e as serras que estavam congeladas começam a soltar as avalanches, engrossando os rios.”. Então também faz sentido pra eles, mesmo sendo diferente do sentido que faz pra nós.
A música em inglês foi gravada por nomes como Al Jarreau, Susannah McCorkle e Art Garfunkel.
3 – Mas que Nada (Jorge Ben Jor)
Composta por Jorge Ben Jor e originalmente lançada por ele em seu icônico álbum “Samba Esquema Novo”, de 1963, o balanço inovador dos arranjos de “Mas Que Nada” fez da canção um grande sucesso no Brasil. Mas isso não aconteceu logo de cara: a genialidade de Jorge Ben Jor primeiro foi recebida com estranhamento, por não ser uma obra que se enquadre na Bossa Nova tampouco no samba tradicional.
O sucesso da canção nos Estados Unidos veio após uma excursão de três meses naquele país, no qual Jorge se apresentou em universidades e clubes, em 1965.
“Mas Que Nada” ganhou projeção e se transformou em um fenômeno internacional quando foi gravada por Sérgio Mendes & Brasil ’66, em 1966, chegando às paradas americanas e britânicas.
Sérgio Mendes foi um músico brasileiro conhecido internacionalmente na difusão da Bossa Nova e do samba. Vivendo por muitos anos nos EUA, ele conquistou Grammys e foi indicado ao Oscar de “Melhor Canção Original”, sendo o recordista brasileiro de ingressos na Billboard Hot 100.
A importância da versão de Sérgio Mendes trouxe traduções para o inglês – feira por L. Deane – em inúmeras versões feitas por artistas como Ella Fitzgerald, Trini Lopez e Nancy Ames. Em 2013, “Mas Que Nada” foi incluída no Hall da Fama do Grammy Latino.
Décadas depois – em 2006 – “Mas Que Nada” foi reinventada pelo próprio Mendes em um remix com participação do grupo Black Eyed Peas, misturando samba, pop e hip hop. Cada versão reafirma o caráter universal do groove brasileiro.
A música, em português, entrou para a trilha sonora do filme “Rio”, da Disney, em 2011, que contou com a colaboração de Sérgio Mendes e Carlinhos Brown.
4 – Aquarela do Brasil (Ary Barroso)
“Aquarela do Brasil”, mais conhecida no exterior simplesmente como “Brazil”, é praticamente um segundo hino nacional do país e também uma das canções mais regravadas da história.
Composta pelo mineiro Ary Barroso, “Aquarela do Brasil” teve a primeira audição na voz da famosa cantora de samba-canção, Aracy Cortes. Em 1939, foi gravada em disco, pelo também muito famoso cantor Francisco Alves.
Mas a música só foi eternizada internacionalmente após entrar para a trilha sonora do desenho “Alô, Amigos”, da Disney, em 1942, interpretada por Aloysio de Oliveira, abrindo as portas dos Estados Unidos para Ary Barroso.
Na animação, o Pato Donald faz uma viagem pela América Latina e acaba passando pelo Brasil, onde é recebido pelo Zé Carioca com muita cachaça e ao som de “Aquarela do Brasil”.
No ano seguinte a canção foi regravada por Carmen Miranda em 1943, que já fazia estrondoso sucesso no exterior, impulsionando ainda mais o sucesso de “Aquarela do Brasil” lá fora, sendo a primeira música brasileira a atingir mais de um milhão de execuções nas rádios dos Estados Unidos.
A versão em inglês, “Brazil” (com letra de Bob Russell), já foi gravada por nomes como Frank Sinatra e Bing Crosby.
A ideia de Ary Barroso com “Aquarela do Brasil” era criar um samba que demonstrasse seu amor pela cultura brasileira, exaltando e valorizando – principalmente – o povo negro e as belezas naturais do nosso país.

