O pagode é mais que um gênero musical — é um elo vivo entre ancestralidade, cultura e comunidade. Nascido no fim dos anos 1970 e início dos 1980, cresceu nos subúrbios cariocas, nas favelas, calçadões, bares e nos lendários “pagodes das tias”, como o da Tia Doca da Portela e o da Tia Gessy.
Filho direto das rodas de samba de “fundos de quintal”, carrega a força do povo, que mantém vivas as letras e batuques que atravessam gerações. Mesmo quando a grande mídia lhe virou as costas, o Cacique de Ramos (fundado em 1961) foi e continua sendo um verdadeiro quilombo cultural. De lá saíram nomes eternos, como Bira Presidente (1937–2025), cuja batida do tantã é patrimônio sonoro e seu famoso miudinho (passo de dança icônico feito pelo artista em suas apresentações) abrem um sorriso instantâneo em nossa memória afetiva, e Arlindo Cruz (1958–2025), cantor, poeta e melodista que moldou o pagode moderno, se tornando símbolo de representatividade, orgulho, protagonismo e gerando voz as necessidades das comunidades, com canções como Meu nome é Favela e Meu Lugar.
A sambista Beth Carvalho (1946–2019), com o álbum No Pagode (1979), ajudou a consolidar o movimento e revelou compositores que se tornariam lendas. Nos anos 90, grupos como Raça Negra, Só Pra Contrariar, Exaltasamba e Fundo de Quintal transformaram o pagode em fenômeno nacional, com melodias românticas e letras que falavam do cotidiano das periferias.
Em 2025, a releitura de “Coração Partido” pelo grupo Menos É Mais (DF) mostrou a versatilidade do gênero, que voltou ao topo das paradas e desbancou o sertanejo após sete anos de liderança. Levantamento da Pro-Música Brasil, com dados de plataformas como Spotify e YouTube, confirma: o pagode é o gênero mais ouvido do país.
Hoje, 94% das músicas mais ouvidas no Brasil são nacionais — e o pagode lidera esse ranking. Isso revela que o público quer ouvir sua própria voz, sua história e suas batidas. Fenômenos como Tardezinha, de Thiaguinho, e Numanice, de Ludmilla, lotam estádios e colocam protagonistas pretos no centro do palco e do mercado.
O pagode é memória e futuro. É batuque que ecoa das esquinas aos grandes shows, grito de pertencimento e convite para celebrar quem somos. Porque cada batida é um chamado para lembrar de onde viemos e para onde vamos.
Essa publicação é fruto de uma parceria especial entre a Novabrasil e o Fórum Brasil Diverso, evento realizado pela Revista Raça Brasil nos dias 10 e 11 de novembro, que celebra a diversidade, a cultura e a potência da música negra brasileira. Não perca a oportunidade de participar desse encontro transformador — inscreva-se já www.forumbrasildiverso.org

