No Brasil, escândalos que alcançam todos os lados costumam morrer por consenso tácito.
A liquidação do Banco Master deixou de ser apenas um caso técnico-financeiro para assumir contornos de espetáculo político, com influência direta na cadeia dos influencers digitais e nas páginas de fofocas. Para o falso jornalismo dessas páginotas de redes sociais, a prática da comunicação ética pouco importa. Na verdade, esses perfis são o que chamo de “articulação artificial da comunicação”, que não diz respeito ao jornalismo per si, mas, conforme exposto pela jornalista Malu Gaspar, diz muito a respeito de um bom Pix na conta.
Nesta semana, investigações expostas pela jornalista envolvendo o Master, vêm indicando a existência de uma ação coordenada para atacar instituições e autoridades, no caso o Banco Central, sustentada por pagamentos milionários, numa engrenagem que extrapola a defesa jurídica convencional e se aproxima de um verdadeiro aparato de pressão pública.
Enquanto isso, uma ala mais ociosa da imprensa parece estar fazendo pouco caso do escândalo, que já ganhou contornos maiores que do Mensalão. O que essa ala, preocupada com views e likes, não percebe é o impacto direto na atividade jornalística que isso implica, remontando o escândalo do “Caso Choquei” — que não daremos profundidade nessa coluna. Dê um Google.
Em outras palavras, ao procurar “comprar a opinião pública” por meio de influencers e páginas de fofocas, o banqueiro Daniel Vorcaro está supostamente apelando para o uso de um possível “gabinete do ódio”, operando em seu favor, transformando um processo de liquidação em narrativa política.
A constatação do tal gabinete, divulgada pela jornalista do O Globo — aqui deixo meus parabéns à jornalista, que faz jus ao que é importante de fato — deu novo fôlego ao pedido de instalação da CPI do Master, que ganhou tração nos últimos dias e atingiu números expressivos.
Até esta sexta-feira, 9, o requerimento reunia o apoio de 208 deputados e 37 senadores, patamar suficiente para garantir a abertura da comissão, com número mínimo de assinaturas e ao menos um fato determinado. No papel, portanto, a CPI está madura. Na prática, a história tende a ser outra.
No Congresso, o cálculo político fala mais alto. A avaliação predominante é simples: “investigar Vorcaro interessa a quem, exatamente?” O temor difuso entre parlamentares é que o banqueiro resolva recorrer a uma delação premiada, capaz de atingir atores de diferentes espectros ideológicos, inclusive aqueles que se movem sem coloração partidária definida, caso clássico do Centrão. Não por acaso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, já teria sinalizado nos bastidores que não pretende dar andamento à investigação. O enterro da CPI começa, assim, antes mesmo de sua instalação formal.
Mas reduzir o episódio a mais uma manobra do Legislativo seria insuficiente. O comportamento do governo também chama atenção. Até o momento, a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém distância calculada do pedido. Segundo o deputado Carlos Jordy, responsável por articular as assinaturas, nenhum parlamentar do PT subscreveu o requerimento. Entre partidos da base governista, apenas três nomes aparecem: Tabata Amaral, Duarte Junior e Marcos Tavares.
O Planalto, por sua vez, ensaia um discurso de conveniência. Dirá que apoia uma investigação ampla sobre o Banco Master, “custe o que custar”, mas que não haveria viabilidade pragmática para o funcionamento da CPI em ano eleitoral, quando o Congresso tende ao esvaziamento. É o argumento técnico a serviço da inação política, onde, paralelamente, Lula acionou o marqueteiro para sinalizar preocupação com o caso, gesto acompanhado por declarações cautelosas do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, segundo colunistas do Estadão.
Enquanto o embate se restringia a órgãos técnicos como o Tribunal de Contas da União e o Banco Central, o governo optou pelo silêncio, confortável na percepção de que o tema não mobilizaria a opinião pública. O cenário mudou quando o escândalo dos influenciadores e das campanhas coordenadas transbordou para as redes, ganhou linguagem popular e alcançou o eleitor comum. A partir daí, o silêncio passou a representar risco — não prudência, mas possível omissão do Estado.
Mas, no fim das contas, no Brasil, escândalos que alcançam todos os lados costumam morrer por consenso tácito. Investigar, nesse caso, tornou-se perigoso demais para quase todos.

