Você conhece a música “Cantiga do Sapo”? Não?! Mas, provavelmente, você já ouviu “Jack Soul Brasileiro”, do Lenine, né?
Pois bem! Sabe aquela parte em que ele fala:
“Me diz aí, Tião
Tião. Oi
Foste? Fui
Compraste? Comprei
Pagaste? Paguei
Me diz quanto foi
Foi 500 reais”
Ela é na verdade um trecho de uma outra música – bem mais antiga, lançada em 1959 – chamada “Cantiga do Sapo”, e composta pelo grande Jackson do Pandeiro com seu parceiro Buco do Pandeiro.
Na verdade, toda a música “Jack Soul Brasileiro” (de 1997) é uma homenagem de Lenine a Jackson do Pandeiro – um dos maiores instrumentistas do país e grande influência para o pernambucano – por sua contribuição para a cultura brasileira.
Uma coisa que se pode dizer das composições de Jackson do Pandeiro é que elementos vividos pelo cotidiano do artista influenciam sua obra.
O baião “Cantiga do Sapo” propõe uma interpretação do passado de muitos homens e mulheres que se encontram distantes da vida de seus pares e embala sentimentos e lembranças diversas.
A inspiração partiu das lembranças infantis da terra natal de Jackson do Pandeiro: a Paraíba. A musicalidade do pandeirista – por intermédio do som do seu instrumento e da letra da música, que simula um diálogo cotidiano de Tião, inspirado pelas quadrinhas populares, em que o interlocutor pergunta e o público responde – cria uma conexão afetiva direta com quem escuta a canção.
Quando lançada, a música fez imenso sucesso efoi regravada por diversos nomes da música brasileira, como: Gilberto Gil,Paulinho Moska, Amelinha, Zé Ramalho, FagnereAlceu Valença.
Até que, em 1997, Lenine inseriu o trecho do diálogo de Tião em “Jack Soul Brasileiro”, canção lançada em dueto com a cantora carioca Fernanda Abreu no seu álbum “Raio-X” e – depois por Lenine, no disco “Na Pressão”, de 1999.
Em seu site oficial, Fernanda Abreu conta sobre a ideia para a criação da canção: “Fui fazer um show em Nova York, em julho de 1996, em um evento em que também foram tocar: Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre, Lenine e outros. Numa noite fomos ao S.O.B. [também conhecido como Sounds of Brazil, um lendário local de música ao vivo no bairro de Lower Manhattan, no SoHo] para dançar e beber.
Otto, percussionista do Mundo Livre[na época], começou a cantar a Cantiga do Sapo, de Jackson do Pandeiro, em cima de uma base de hip-hop. O rap-repente ficou muito bom. Vi que tinha um lance ali. Quando cheguei, liguei pra pessoa certa pra fazer essa conexão Rio-Nordeste: Lenine. O resultado foi ‘Jack Soul Brasileiro’.”
A composição de Lenine, além de trazer ritmos nordestinos e incluir elementos da obra de Jackson do Pandeiro, ainda destaca um jogo de palavras que referencia o paraibano e o considera como a “alma brasileira” (a palavra “soul“, que deu nome ao gênero musical originado na comunidade negra dos Estados Unidos entre os anos 1950 e 1960, também quer dizer “alma” em inglês).
Mais sobre Jackson do Pandeiro

Um dos artistas mais icônicos da nossa música popular brasileira: o cantor, compositor e multi-instrumentista paraibano Jackson do Pandeiro fez história com sua musicalidade e transformou para sempre a cultura do nosso país, ficando conhecido como O Rei do Ritmo.
Nascido José Gomes da Silva Filho, em 1919, em Alagoa Grande, na Paraíba – filho de uma cantadora de coco e de um oleiro – o artista teve uma infância muito pobre e nunca frequentou uma escola. Com a mãe, começou a tomar gosto pelo ritmo como tocador de zabumba.
Com a morte do pai e passando muita dificuldade, foi morar com a mãe e os irmãos em Campina Grande, onde teve diversos trabalhos para ajudar no sustento da casa.
Foi lá que começou sua carreira artística: tocava na noite e na feira central, passando pela zabumba, bateria, bongô, até chegar profissionalmente ao pandeiro. Passou a usar o nome artístico de Jack do Pandeiro, inspirado em Jack Perry, artista de filmes de faroeste.
Mudou-se para João Pessoa e conheceu dois de seus principais parceiros: Benigno de Carvalho e Rosil Cavalcanti, de quem gravou seu primeiro grande sucesso: “Sebastiana”.
Continuou sua vida de músico tocando em boates e cabarés, sendo, logo a seguir contratado para tocar orquestra da Rádio Tabajara e, em 1948, migrou para a Rádio Jornal do Commercio, em Recife, já muito experiente no que diz respeito ao ritmo e à musicalidade e onde finalmente virou Jackson do Pandeiro.
Foi lá que conheceu a cantora e compositora Almira Castilho, com quem teve uma bem-sucedida parceria musical e foi casado por alguns anos.
Somente em 1953, com 35 anos, Jackson do Pandeiro gravou o seu primeiro disco, com as canções “Forró em Limoeiro” (de Edgar Ferreira) e “Sebastiana”. Em 1954, se mudou para o Rio de Janeiro e, naquele mesmo ano, lançou quatro compactos e um LP, Jackson do Pandeiro com Conjunto e Coro. Em 1956, vieram outros sete discos de 78 rpm e outro LP: “Forró do Jackson”.
Teve um programa dominical na TV Tupi chamado “Jackson do Pandeiro na Tupi” e, depois, foi para a Rádio Nacional, onde alcançou grande sucesso, principalmente com as canções:
- O Canto da Ema (de Alventino Cavalcanti, Aires Viana e João do Vale)
- Chiclete com Banana (de Gordurinha e Almira Castilho)
- Um a Um (de Edgar Ferreira)
- A Ordem é Samba (parceria com Severino Ramos)
- Samba do Ziriguidum (Jadir de Castro e Luis Bittencourt)
- Lágrimas (parceria com Sebastião Nunes e José Garcia)
- Cantiga do Sapo (parceria com Buco do Pandeiro)
Sua facilidade em cantar os mais diversos gêneros musicais: baião, coco, samba-coco, rojão, além de marchinhas de carnaval, impressionava os críticos, além do fato de ter aprimorado a sua capacidade jazzística, por tocar por muito tempo no Cassino Eldorado, na Paraíba.
Considerado por muitos como o maior ritmista da história da MPB, Jackson do Pandeiro, ao lado de Luiz Gonzaga, foi um dos principais responsáveis pela nacionalização de canções de origem nordestina.
Ao longo de quase 30 anos de carreira, lançou mais de 30 LPs e sua maneira de dividir a música inspirou até João Gilberto, o chamado Pai da Bossa Nova.
Jackson nos deixou aos 62 anos de idade, vítima de uma embolia pulmonar e cerebral, enquanto excursionava por Brasília.
Saiba mais também sobre Lenine, nesta matéria especial em nosso site.


