Vinicius de Moraes foi um dos maiores poetas e letristas do Brasil, cuja obra deixou marcas profundas na música popular brasileira e na cultura do país. Conhecido como o Poetinha, Vinicius também foi cantor, compositor, dramaturgo, crítico, roteirista e diplomata, tendo sua trajetória marcada pela poesia, que sempre considerou sua primeira e maior vocação.
Ao longo de sua carreira, o artista – que completaria mais um ano neste 19 de outubro – construiu parcerias que se tornaram fundamentais para a história da MPB, colaborando com artistas de diferentes gerações e estilos.
Entre as colaborações mais significativas de Vinicius de Moraes, destacam-se cinco que, de maneira especial, ajudaram a consolidar sua obra e a música brasileira como a conhecemos hoje. Vamos relembrá-las?
1 – Tom Jobim
Em 1956, Vinicius conseguiu uma licença-prêmio da sua então carreira diplomática no Itamaraty e retornou ao Brasil por um breve período, para encenar sua peça “Orfeu da Conceição”.
Já no Rio de Janeiro, Vinicius começou a selecionar a equipe que faria parte do espetáculo. Por meio de seu amigo e crítico de música, Lúcio Rangel, conheceu o então jovem pianistaAntônio Carlos Jobim, que tornou-se não só o seu parceiro musical para aquela peça, mas seu parceiro por uma vida, vindo a fundar juntos – pouco tempo depois – a nossa Bossa Nova.
Em quinze dias, Tom e Vinicius fizeram praticamente toda a trilha do espetáculo, com canções como as clássicas “Lamento do Morro” e “Se Todos Fossem Iguais A Você”.
Foi no ano de 1958, que a música invadiu definitivamente a vida do poeta Vinicius de Moraes, a partir do lançamento do disco “Canção do Amor Demais”, em que a cantora Elizeth Cardoso interpreta 13 canções da dupla Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
O álbum conta com a faixa “Chega de Saudade”, em que a cantora é acompanhada pelo violão revolucionário do baiano João Gilberto. A batida de João ao violão somada à composição da dupla Tom e Vinicius, apresentou o movimento musical que ficou mundialmente conhecido a partir de então por Bossa Nova, transformando para sempre o DNA da música popular brasileira.
O disco de Elizeth ainda conta com clássicas canções da dupla, como: “Eu Não Existo Sem Você”, “Modinha” e “Canção do Amor Demais”.
Em 1959, João Gilberto lançou o seu disco de estreia, que ganhou o nome de “Chega de Saudade”. A apresentação inovadora do chamado Pai da Bossa Nova, transformou a canção em uma das mais importantes da história da música brasileira (este disco de João ainda conta com a canção “Brigas Nunca Mais”, também de Tom e Vinicius).
Ainda em 1950, a cantora Lenita Bruno gravou um disco só com composições da dupla, “Por Toda a Minha Vida”, que ajudou a aumentar o sucesso de Tom e Vinicius. Entre as músicas: além da faixa título, estão “Soneto da Separação” e a clássica “Eu Sei Que Vou Te Amar”.
Em 1959, estreou o filme “Orfeu Negro” (ou “Orfeu do Carnaval”, do francês Marcel Camus, inspirado na peça de Vinicius), que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Entre as canções de Tom e Vinicius no filme, destacam-se “A Felicidade” e “O Nosso Amor”.
Em 1960, o poeta viajou com Tom Jobim para a recém fundada nova capital brasileira, a convite do então presidente Juscelino Kubitscheck, para compor uma canção em homenagem a Brasília: “Sinfonia da Alvorada”. Foi neste momento que a dupla compôs também a icônica canção “Água de Beber”.
Tom e Vinicius também são os compositores dacanção brasileira mais regravada da história, “Garota de Ipanema”, lançada primeiramente pelo cantor e compositor carioca Pery Ribeiro, em 1963.
A versão em inglês da canção – “Girl From Ipanema” – que ganhou o Grammy Awards de Gravação do Ano, em 1965, foi feita pelo norte-americano Norman Gimbel e interpretada por Astrud Gilberto e pelo saxofonista Stan Getz, e faz parte do álbum “Getz/Gilberto”, gravado nos Estados Unidos e com participação especial de Tom Jobim no piano.
Conhecida internacionalmente, “Garota de Ipanema” é também a segunda música mais regravada do mundo (ficando apenas atrás de “Yesterday”, dos Beatles), tendo sido gravada por astros estrangeiros como Frank Sinatra, Cher, Madonna, Plácido Domingo e Amy Winehouse.
Outras composições de sucesso da dupla que ajudou a fundar a Bossa Nova, são:
- Insensatez
- O Morro Não Tem Vez
- Ela é Carioca
2 – Baden Powell
Em 1962, Vinicius de Moraes conheceu e começou a compor com o violonista e compositor carioca Baden Powell, que veio a se tornar um de seus maiores parceiros. Após três meses morando juntos, a dupla produziu um dos cancioneiros mais importantes da música popular brasileira.
Neste mesmo ano, o poeta participou – ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e outros artistas – do show “O Encontro”, um marco definitivo para a Bossa Nova, dirigido por Aloysio de Oliveira. Neste show, na boate Au Bon Gourmet, em Copacabana, o público ouviu – em primeiríssima mão – dois grandes clássicos da parceria entre o Poetinha e Baden Powell: “Samba da Benção” e “O Astronauta“.
No mesmo ano, Vinicius lançou suas primeiras gravações como intérprete de suas próprias músicas. O disco “Vinicius & Odete Lara” foi dividido com a atriz e cantora e todas as canções são composições suas em parceria com Baden Powell, como as famosas “Berimbau” e “Bênção”.
Em 1965, a canção da dupla, “Valsa do Amor Que Não Vem”, interpretada por Elizeth Cardoso, ficou emsegundo lugar no I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior.
No mesmo ano, o disco do espetáculo “Vinicius: Poesia e Canção”, todo dedicado à obra do poeta, trouxe outro imenso sucesso de Powell e Vinicius: “Canto de Ossanha”.
Essa canção entrou – em 1966 – para a obra mais significativa da dupla: o disco “Os Afro-sambas”, com participação do conjunto Quarteto em Cy em todas as faixas. Entre as outras faixas do disco – estão: “Canto de Xangô”, “Canto de Iemanjá” e “Tristeza e Solidão”.
Inspirados por gravações de candomblé e sambas de roda, a dupla de compositores criou uma obra atemporal, que combina elementos clássicos e ritmos afro-brasileiros.
3 – Toquinho
Em 1969, passando uma temporada na Itália, Vinicius de Moraes encontrou com seu amigo Chico Buarque, auto exilado do Brasil por conta da ditadura militar, e gravou com o poeta Giuseppe Ungaretti, e com o cantor Sergio Endrigo, o disco histórico “La Vita, Amico, É L’arte Dell’incontro”, com suas canções traduzidas para o italiano.
E quem diria que, deste disco, sairia um dos mais importantes encontros da vida de Vinícius: seu futuro grande parceiro, Toquinho. O cantor, compositor e violonista também estava na Itália, fazendo uma temporada de shows com Chico e gravou os violões do disco do poeta.
Os dois nem chegaram a se encontrar durante as gravações e, antes disso, só tinham se encontrado umas duas vezes na vida. Mas, quando Vinicius escutou os violões de Toquinho em seu disco gravado na Itália, ficou encantado com a habilidade do artista e o convidou para acompanhá-lo em uma temporada de shows na Argentina, logo em seguida.
Já na viagem de barco para Buenos Aires, começou uma amizade e parceria que durou – literalmente – até o último dia de vida de Vinicius.
Logo veio a primeira composição da dupla, “Como Dizia O Poeta”, seguida de “À Bênção, Bahia” e “Mais Um Adeus”. Então, fizeram o primeiro show juntos, em 1970, no Teatro Castro Alves, que foi um absoluto sucesso.
O show que fizeram em Buenos Aires – ao lado da cantora Maria Creuza – virou disco, ainda sem nenhuma composição da dupla, mas uma das mais belas pérolas gravadas da música brasileira.
Logo, Vinicius e Toquinho passaram a dominar todos os espaços: dos circuitos universitários aos grandes teatros, das turnês nacionais e internacionais às trilhas de novelas (como a histórica “O Bem Amado”, de 1973, em que compuseram a trilha completa, com canções como a da abertura).
A dupla gravou diversos discos juntos, de 1970 até o fim da vida de Vinicius. Muitas vezes acompanhados de uma figura feminina, como foi o caso deMaria Bethânia, Clara Nunes, Marília Medalha, Maria Creuza e Simone. Outras vezes, se apresentavam sozinhos, tocando e cantando suas canções.
Em 1971, lançaram o primeiro disco com suas composições em parceria, originado a partir de um show que fizeram com Marília Medalha. Neste disco, está o grande clássico “Tarde em Itapoã”. Um dos maiores sucessos da música popular brasileira, a música consagrou de vez a parceria de Toquinho e Vinicius.
Na composição, primeiro o poeta escreveu a letra e, depois, Toquinho a musicou, sem mexer em uma sílaba sequer, o que o fez conquistar ainda mais – e para sempre – a confiança de Vinicius.
Em 1971, os dois voltaram a Buenos Aires para um show, que também virou disco, acompanhados de Maria Bethânia. Entre as canções, estão as clássicas parcerias da dupla: “A Tonga da Mironga do Kabuletê”, “Testamento” e “Samba da Rosa”.
Toquinho compôs para o parceiro de uma vida a canção “Samba para Vinicius”, na qual Chico Buarque colocou a letra, em que sintetiza perfeitamente Vinicius de Moraes. A primeira parte toda iniciando predominantemente com a letra P, de “Poeta“, e a segunda parte com a letra V, de “Vinicius“.
Em 1974 – ao lado de Clara Nunes, a dupla apresentou o show “O Poeta, a Moça e o Violão”, no Teatro Castro Alves, em Salvador.
Em 1979, a dupla comemorou 10 anos de parceria em um show inesquecível, que rodou o Brasil. Vinicius tinha 65 anos, Toquinho 33. Juntos, já tinham gravado mais de 20 LPs, escrito mais de 100 canções e feito mais de mil shows, com composições de sucesso, que fizeram história na música popular brasileira.
Além do show, um LP com 28 canções dos dois, celebrou os 10 anos de encontro.
Foram centenas de composições juntos e é difícil destacar só algumas. Além das já citadas, são exemplos:
- Morena Flor
- Samba da Volta
- Regra Três
- A Vida Tem Sempre Razão
- O Velho e a Flor
- Carta ao Tom 74
- Canto de Oxum
O show de encerramento da temporada “10 Anos de Parceria” também foi a última vez de Vinicius de Moraes no palco. O poeta faleceu um ano depois, em julho de 1980, aos 66 anos, depois de ter passado por duas isquemias cerebrais e sofrido um edema pulmonar. Toquinho esteve presente nos últimos minutos de vida do amigo, pois estava hospedado em sua casa para uma temporada de shows com Francis Hime, no Rio de Janeiro.
Os amigos passaram as últimas horas de vida de Vinicius juntos, fazendo o que mais gostavam: tocando, cantando e proseando, planejando o próximo disco, baseado no livro de poemas infantis de Vinicius: “Arca de Noé”.
No disco “Um pouco de Ilusão”, pouco antes da partida do amigo e parceiro, Toquinho dobrou sua voz em seis canais e – com a ajuda de um efeito fonográfico – criou a sensação de estarmos ouvindo a voz do poeta junto com a dele, mesmo Vinicius não tendo cantado uma só nota, pois já estava com a saúde debilitada.
Em 1983, Toquinho lançou ainda “Aquarela”, canção mais famosa de sua carreira e que também é uma parceria com Vinicius de Moraes. Na verdade, a história é curiosa: durante todos os seus anos de parceria, Toquinho e Vinicius tiveram uma relação muito estreita com o público italiano: fizeram diversas turnês pelo país, gravaram discos inteiros em italiano e fizeram parcerias importantes por lá.
A história completa da música “Aquarela” nós contamos nesta matéria especial!

