O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não deve ceder ao ultimato imposto por Donald Trump para um cessar-fogo na Ucrânia.
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não deve ceder ao ultimato imposto por Donald Trump para um cessar-fogo na guerra contra a Ucrânia, segundo fontes próximas ao Kremlin ouvidas pela agência Reuters. Apesar das ameaças de novas sanções e tarifas de 100% sobre países que compram petróleo russo, como China e Índia, o líder russo segue determinado a ocupar totalmente as regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson — territórios que Moscou já reivindica como parte de seu domínio.
A ofensiva russa ganhou terreno durante o verão europeu, com avanços territoriais que totalizaram 502 quilômetros quadrados apenas em julho. Desde o início do conflito, em 2022, a Rússia já ocupa cerca de um quinto do território ucraniano. Apesar disso, dados do Center for Strategic and International Studies apontam que, desde o início de 2024, os ganhos territoriais russos somam menos de 1% da área total da Ucrânia.

Aposta militar, não diplomática
Mesmo diante de uma janela diplomática — na qual os Estados Unidos teriam oferecido, em março, a retirada de sanções e o reconhecimento da posse da Crimeia e das áreas ocupadas desde 2022 em troca de um cessar-fogo completo — Putin optou por seguir com a ofensiva militar. Fontes ligadas ao Kremlin apontam que, embora o presidente russo reconheça a importância da relação com Trump, ele não está disposto a abandonar a guerra apenas para atender às exigências americanas.
“Se Putin conseguir ocupar integralmente os quatro oblasts que reivindicou para a Rússia, poderá afirmar que seus objetivos militares foram alcançados”, avalia James Rodgers, autor do livro The Return of Russia.
As rodadas de negociação entre representantes russos e ucranianos, que ocorreram três vezes desde maio, não avançaram de forma substancial. Na prática, segundo fontes russas, servem mais para mostrar disposição diplomática a Washington do que para construir um acordo concreto.
Tensões e desconfianças
A pressão de Trump inclui ameaças públicas e críticas diretas a Putin. O ex-presidente norte-americano classificou como “nojento” o bombardeio russo mais letal do ano em Kyiv, que matou 31 pessoas, incluindo cinco crianças. Apesar disso, autoridades russas ainda expressam ceticismo sobre a eficácia de novas sanções. Segundo uma fonte ouvida pela Reuters, “não há muito mais que eles possam fazer contra nós”.
Trump já declarou que a Rússia é “bastante hábil em evitar sanções”, enquanto o Kremlin insiste que o país possui certa “imunidade” às penalidades econômicas. Dados da ONU mostram que o investimento estrangeiro direto na Rússia caiu 63% no último ano e que cerca de US$ 300 bilhões em ativos do banco central russo foram congelados em jurisdições estrangeiras. Ainda assim, o esforço de guerra tem sido mantido graças ao fornecimento de munições da Coreia do Norte e ao apoio tecnológico chinês, com componentes de uso dual.
Reação de Kyiv e risco nuclear
Do lado ucraniano, a primeira-ministra Yulia Svyrydenko pediu à comunidade internacional “pressão máxima” após o ataque a Kyiv. Enquanto isso, Moscou elevou o tom e anunciou o fim da adesão ao acordo de moratória sobre mísseis de curto e médio alcance — em meio ao aumento da retórica nuclear entre os dois países.
A visita do enviado especial de Trump, Steve Witkoff, à Rússia ainda nesta semana pode indicar uma tentativa final de negociação antes do vencimento do prazo imposto pelos Estados Unidos. Até agora, no entanto, o Kremlin não respondeu oficialmente às ameaças americanas.
Apesar das perdas humanas e econômicas, Putin parece convencido de que este não é o momento de interromper a guerra. Segundo uma das fontes russas, nem o exército nem a população entenderiam uma retirada agora. A expectativa de parte da cúpula militar russa é que a frente ucraniana entre em colapso nos próximos dois a três meses — percepção que alimenta a continuidade da ofensiva.

